
Notória na obra
de Sérgio Sant’Anna, a experimentação
formal apresenta-se em O Vôo da Madrugada (publicado
no Brasil em Setembro de 2003, prémio de conto da Associação
de Críticos
de Arte de São Paulo) na tentativa de realizar um conto abstracto,
na exploração de temas obscuros, no impulso criativo
depois de um internamento hospitalar ou na esperança de uma
personagem –o Gorila –em encontrar estratégias inusuais,
e incompreendidas, de comunicação e consolo. A solidão
persegue as personagens destes contos de forma desesperada, a ponto
de fazê-las pensar em pôr termo à existência;
essa obsessão pelo desfecho da vida associa-se a uma forte carga
erótica.
Os contornos inovadores desta escrita são dados pela oscilação
entre a voz do narrador e do próprio escritor, como acontece nas belas
invocações da memória do autor ou nos três magníficos
contos finais, em que ficção e ensaio se conjugam para especular
sobre o papel do olhar na representação da nudez da mulher na pintura,
defendendo uma arte ligada de forma íntima à vida.
Entrevista por Paulo Celso Pereira
- Jornal do Brasil:
- Como você tem recebido a série
de premiações de O vôo da madrugada?
- Quando lancei o livro, não sabia
o que pensar dele, pois ele tem certas diferenças com a minha
obra. Apesar de ter alguns contos experimentais, o livro desce muito
a problemas fortes e densos da sensibilidade humana. Não sabia
como seria recebido. Mais tarde, percebi que estava tocando muito os
leitores, e não só a crítica, que, em geral, foi
positiva. Só aí vi que o livro tinha alcançado
um resultado.
- Você acha que as pessoas supervalorizam
os prêmios?
- Prêmio é uma coisa relativa.
Não se pode julgar literatura por prêmios. É legal
ganhar, ficamos contentes, mas não é o prêmio que
faz o escritor. O escritor fica satisfeito, ninguém acha ruim
ganhar R$ 30 mil (valor do prêmio Portugal Telecom), mas isso
não quer dizer que sempre sejam os melhores os premiados. No
caso de O vôo da madrugada, fico satisfeito porque, com três
prêmios, é sinal de que muita gente viu que o livro tinha
um determinado valor.
- Como avalia o resultado do Portugal Telecom?
- Eu
só li o livro do Paulo Henriques depois, e achei-o de alto nível.
Agora, vou ser sincero, se eu fosse do júri votaria no Não
poemas, do Augusto de Campos, para primeiro lugar. E no meu em segundo
(risos). Acho que o Augusto deveria ganhar, não só pelo
livro, mas por toda a obra dele, por tudo o que ele representa. Ele
sofreu a rejeição ao concretismo. Embora este já seja
um livro neoconcretista, com muita subjetividade, é bem interessante.
- Você gosta
de ver provocação no texto?
- Não
gosto de arte bem comportada. Arte que é arte tem que ser provocativa.
Arte tem que mexer com a sua cabeça. Acho saudável a
atitude desse pessoal que faz parte dos livros Geração
90. É muito legal escrever um texto que balança as pessoas.
Mas não sei se O vôo da madrugada é provocador
assim.
- E
como o público reage?
- No
Brasil, e principalmente no Rio, vivemos na cultura do ''tudo bem''.
Tudo é piadinha e crônica de jornal. O vôo da madrugada é um
livro que mexe com depressão e morte. Acho isso provocador sim.
São coisas que todas as pessoas têm dentro de si, sentem
e sabem. Mas, aqui no Brasil, e sobretudo no Rio, parece que há uma
filosofia de fingir que essas coisas não existem. Tanto é que
se você olhar na lista dos mais vendidos, verá que todo
mundo quer ler o cronista engraçado, a piada. Não que
não goste de humor, eu gosto, mas prefiro um humor elaborado.
- Há um
excesso de livros de alta vendagem e qualidade duvidosa?
- O
best-seller vai sempre existir, pois agrada a muita gente. Mas também
vai existir um espaço para uma literatura como a minha. Vendo,
em média, 5 mil exemplares de cada livro que lanço. O
vôo da madrugada levou um ano para esgotar a primeira edição
de 3 mil, mas acho isso natural, porque faço literatura mesmo.
Para um cara comprar o meu livro tem que gostar de literatura de uma
determinada densidade, tem que gostar da linguagem. Não vou
esperar que uma pessoa que está procurando só entretenimento
vá ler meu livro.
- Qual
foi a recepção do mercado?
- Saiu
uma edição portuguesa e sairá agora uma espanhola.
Para um livro de contos é uma carreira boa. Acho bom vender
3 mil exemplares. O escritor sofre uma concorrência fortíssima,
ele disputa com todos os autores, vivos e mortos. Embora esteja havendo
esse estardalhaço em torno do conto, o que vende muito são
essas antologias, tipo 100 melhores contos de alguma coisa, isso vende
que nem banana. Os livros de conto de um só autor não.
Esses vendem muito menos do que os romances.
- Ainda se sente influenciado?
- Não
me sinto mais influenciado. Pode parecer arrogante mas não é.
Li muita gente que se misturou tanto dentro de mim, que, felizmente,
acho que encontrei meu estilo próprio, a linguagem é minha.
Sai de dentro de mim e se a influência existe, não é mais
consciente. O ideal de todo escritor é procurar mesmo o seu
espaço, a sua linguagem, sua voz própria. Às vezes,
vemos no Brasil pessoas que lançam livros que parecem Rubem
Fonseca ou Clarice Lispector. Não acho isso desejável.
- Como desenvolve seu conto?
- O conto, em geral, é muito mais
artesanal, busca muito mais a linguagem do que os romances. Em geral,
os romancistas são menos pesquisadores de linguagem. Os contistas
se aproximam um pouco do poeta. Posso dizer que, no meu caso, a linguagem
tem uma densidade poética. É como se eu estivesse compondo
internamente uma melodia. Não gosto do termo prosa-poética
porque tem muita sub-literatura que fala assim. Meu intuito não é enfeitar. É uma
melodia rigorosa, então, em vez de prosa-poética, prefiro
a palavra composição. Meus contos são composições.
- Tem publicação em vista?
- Não
tenho a menor vontade de botar na rua um livro por ano e cansar as
pessoas. Acho perigoso, porque às
vezes os livros pouco se diferenciam uns dos outros. É bom o
escritor dar um tempo entre um livro e outro. Uma característica
minha é que os livros não se pareçam.
- Na
Festa Literária Internacional
de Paraty, sua declaração a respeito do tamanho excessivo
dos romances causou polêmica.
- Falei
em Paraty que a maioria dos romances tem pedaços excessivos
e deu uma celeuma desgraçada.
Falei que estava zapeando livros, porque, de fato, muitas vezes eu
abro o romance para ler, chego no meio e penso que já li o que
me interessava. Como são muitos livros, às vezes eu paro
no meio para pegar um outro. Muitos romances de nomes sagrados são
excessivos. É muita coisa para ler, então leio um pedaço
de um, um pedaço de outro... É muito parecido com zapear
na televisão: você pega um terço de um filme, cinco
minutos de outro, e é legal. |