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É sabido
que Virginia Woolf gostava muito de festas. Achava que essas
ocasiões sociais, com as suas regras próprias, iluminavam qualquer
coisa que passaria facilmente invisível no dia-a-dia: sob o brilho de
uma festa, sujeitas à sua tensão particular, as pessoas ficam
mais vulneráveis. Virginia Woolf fez perdurar a festa em redor da qual
construiu o romance Mrs Dalloway, de 1925, nestes contos, escritos
entre 1922 e 1927. A
festa de Mrs Dalloway é portanto o livro dessa festa – que,
como todas, é um verdadeiro microcosmo social. Virginia Woolf esmiuça
magistralmente a subtileza das reacções e das angústias
dos seres humanos artificialmente confinados dentro dos limites impostos por
uma ocasião social.
‘A
ideia da festa sempre a empolgou, ela era de facto muito sensível à excitação
mental e física da festa em si, à subida da temperatura
do corpo e do espírito...’
(Leonard Woolf) ‘Mas
o que eu penso agora é que as pessoas têm vários
estados de consciência: e eu gostaria de investigar a consciência
da festa, a consciência dos vestidos, etc. ...’
(Virginia
Woolf, Diário, 27 de Abril de 1925)
Às vezes tinha
pena de ter ficado solteira. Às vezes, a paz morna da meia-idade, com
os seus expedientes automáticos para proteger a mente e o corpo de feridas,
parecia-lhe, comparada com a trovoada e as flores lívidas despontando
em Canterbury, inferior. Ela conseguia imaginar algo de diferente, algo
de semelhante aos raios, algo mais intenso. Ela conseguia imaginar uma
sensação física. ela conseguia imaginar ou...
E, estranhamente, pois nunca o vira antes, os seus sentidos, aqueles
tentáculos antes arrebatados e retraídos, deixavam agora de enviar mensagens,
permaneciam agora quiescentes, como se ela e Mr. Serle se conhecessem
tão bem, estivessem, de facto, tão próximo um do outro que se deixavam
apenas flutuar ao longo da corrente.
De todas as coisas, nada é tão estranho quanto as relações humanas, pensou
ela, por causa das suas mudanças, da sua extraordinária irracionalidade.
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