Vejo a Signe, deitada no divã da sala, a olhar para as coisas de sempre, a velha mesa, o fogão, a caixa da lenha, os painéis de madeira que revestem as paredes, a grande janela para o fiorde, ela olha sem ver e tudo está como sempre esteve, nada mudou, e todavia tudo mudou, pensa ela, porque desde que ele desapareceu já nada é igual, está aqui, sem estar aqui, os dias vêm e os dias vão, as noites vêm e as noites vão, e ela segue também, no seu lento movimento, sem deixar que nada faça uma marca ou um corte, e que dia é hoje?, pensa ela, sim, é quintafeira, e o mês é Março do ano 2002, sim, isso ela sabe, mas que data é e assim, não, não sabe, e por que é que havia de saber? que é que isso importa? pensa ela, seja como for ainda consegue sentir-se segura e confiante, tal como se sentia antes de ele ter desaparecido, mas depois aquilo volta a tomar conta dela, o desaparecimento dele, naquela terça-feira, no fim de Novembro, em 1979 [...]
Jon Fosse, in É a Aless
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