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___PRÉMIO
NOBEL 2007
Lá vai gata preta,
atarefada, atarefada, verificar focinhos, caudas, pêlos. [...] Gatinhos. Uma
criaturinha viva na sua membrana transparente, rodeado pela imundície do seu
nascimento. Dez minutos mais tarde, húmido mas limpo, já mamando. Dez dias
depois, uma migalha com olhos macios e nebulosos, a boca abrindo-se num
silvo de corajoso desafio à enorme ameaça que sente debruçada sobre ele.
Nesta altura, em vida selvagem, confirmaria a sua selvajaria,
tornando-se um gato selvagem. Mas não, uma mão humana toca-o, um cheiro
humano envolve-o, uma voz humana sossega-o. Depressa sai do ninho, confiante
de que as gigantescas criaturas à sua volta não lhe farão mal. Cambaleia,
depois anda, depois corre a casa toda. [...] Gatinho encantador,
gatinho bonito, lindo fofinho pequenino delicioso bichinho
- e vai-se embora.

Doris Lessing (n. 1919)
pertence à elite das mais versáteis, populares e consideradas escritoras
inglesas do século XX. A sua escrita prodigiosa conduz-nos, no caso de Gatos
e mais gatos, por uma vida (autobiográfica) cujo calendário se estabelece
tomando muito em conta a vida (e a humanidade) dos gatos que a partilham.
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