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Menina Else, de Arthur Schnitzler, é das primeiras obras literárias a expor um drama psicológico na primeira pessoa. Emblemático autor da Viena fin-de-siècle e importantíssimo escritor de língua alemã, Arthur Schnitzler (1862-1931) conviveu com figuras notáveis da cultura europeia, como Freud, Klimt, ou Schoenberg. Freud, que o considerava uma espécie de seu duplo na área da literatura, disse-lhe, numa carta:
A sua determinação e o seu cepticismo – a que as pessoas costumam chamar pessimismo, a preocupação que você tem com as verdades do inconsciente e com os impulsos e instintos do homem, a dissecação que faz das convenções culturais da nossa sociedade, a atenção que o seu pensamento presta à polaridade do amor e da morte; tudo isso me comove com um estranho sentimento de familiaridade. Sempre que me deixo absorver por uma das suas belas criações, encontro invariavelmente sob a superfície poética que elas apresentam as minhas próprias suposições, interesses e conclusões... Fico com a impressão de que você conhece intuitivamente tudo o que eu descobri com laborioso estudo sobre os outros.
Em Menina Else, uma rapariga muito bela e imaginativa, de férias num hotel em Itália, vê-
-se obrigada, por circunstâncias familiares, a ter de tomar rapidamente a decisão mais importante da sua vida. De si depende salvar o próprio pai, jogador inveterado; mas para tanto terá de mostrar-se nua a um velho amigo de família, que manipula a situação. Else, no que é essencialmente um monólogo interior de uma modernidade surpreendente, esforça-se por encontrar um equilíbrio entre o mundo real e o mundo tal como ela o sonhava, enquanto lida com a enorme perturbação interior que é a sua própria sexualidade. Dizendo de outro modo: nesta novela de 1924, Schnitzler coloca-nos dentro da cabeça de uma jovem e lindíssima mulher que tem de decidir sozinha se permitirá que a tratem meramente como objecto sexual. O preço a pagar, seja qual for a decisão que tome, será sempre elevadíssimo.
Filho de um médico judeu de renome, Arthur Schnitzler também estudou medicina na Universidade de Viena, tendo chegado a escrever uma tese sobre o tratamento hipnótico das neuroses; porém, foi à literatura que dedicou a vida. Romancista, contista e dramaturgo de excepção, viu reconhecidos os seus méritos literários nos anos 90 do século XIX, não sem controvérsia, como é costume com os que vão à frente no seu tempo. A ideologia nazi havia de proibir-lhe as obras, tanto na Alemanha como na Áustria.
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