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Moravagine anda fugido de mim. Passo dias inteiros sem lhe pôr a vista
em cima. Um rumor sombrio começa então a propagar-se nos bairros populosos
do centro da cidade. Há um maníaco que se vai emboscar nas passagens obscuras,
nas casas com dupla saída. Precipita-se sobre as mulheres, estripa-as e
põe-se em fuga. Atira-se de preferência às raparigas e ataca mesmo as
crianças. Provoca vítimas todas as noites, estende a sua acção até aos
arredores. Berlim inteira emociona-se. A população anda aterrorizada. Os
boatos tornam-se cada vez mais minuciosos. Os jornais consagram colunas
inteiras à imolação das vítimas daquele a que chamam “Jack o estripador”.
Fornecem os traços dele. Puseram-lhe a cabeça a prémio. Não tinha
dificuldade em reconstituir a figura que avulta no meio destas descrições. É Moravagine.
Uma noite, pergunto-lhe.
Blaise Cendrars (1887-1961)
é uma grande figura da literatura avant-garde francesa. Passou muita da sua
vida em viagens pelo mundo, viveu de perto a revolução russa de 1905. Moravagine, obra-prima indiscutível foi escrita em 1926 e foi traduzida para
mais de vinte línguas.
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