Quem não conhece,
no meio cultural português, Jorge Silva Melo? Cineasta, actor,
encenador, dramaturgo, co-fundador do teatro da Cornucópia, director
dos Artistas Unidos, cronista excepcional, interveniente enérgico
e sempre disponível para comentar e, portanto, para ajudar a reflectir
(e, portanto, generoso), socialmente incorrecto, politicamente incorrecto,
amante de todas as artes, que a elas tem dedicado uma vida superlativamente
talentosa – quem não o conhece, perguntávamos, quem não
conhece aquele rosto dele, sagaz, o discurso franco? Poucos. Porém,
não consta que alguém tenha ousado formular a seu respeito
este enunciado simples: Jorge Silva Melo é dos maiores escritores
de língua portuguesa destes tempos. E os maiores, sabemo-lo, contam-se
pelos dedos das mãos.
Não se trata, apenas, de uma inabalável convicção
de editores atentos. Experimente-se isto: rasure-se do nosso espírito
a hierarquia dos géneros (orgulhar-se-ia alguém de viver
num «país de dramaturgos» tanto como se orgulha do seu «país
de poetas»?), pérfida invenção corporativa –
e Jorge Silva Melo não é poeta nem romancista –, pegue-se
neste monumental Século Passado e leia-se. Não é preciso
mais. E, pela leitura, atravesse-se o país desde os anos 50, o Portugal
apertadinho, em que as revistas de cinema, com fotografias e resumos, eram
o seu telescópio de menino para o mundo, enquanto comia uma bola-de-berlim
da leitaria do Senhor Aires: «Eu gostava de tudo, dos Hércules
no São Jorge, de uns policiais alemães com o Peter van Eyck
no Roma, do fantástico ‘Guerra e paz’ de King Vidor, gostava era
do cinema, de comprar o bilhete, receber o programa, ouvir o gong e ali
ficar, entre aventuras de piratas e dramas de amor, pensando que iria ser
assim, desmesurada, a minha vida adulta e o grande amor.» Romântica,
nem podia deixar de o ser, a voz cultíssima e suculenta, entre o
irónico, o irado e o terno, de um homem que nunca se escusou a
fazer por ter muito a dizer. Desmesurada vida, sim.
Sob a epígrafe de serem ficção três quartos
da nossa vida, Jorge Silva Melo reúne, nestas quase 600 páginas,
boa parte dos escritos dos seus quase 60 anos de vida, não cronologicamente
mas pelo significado que cada assunto tratado, ou pessoa, teve em cada
década. Formidável ideia essa, a de escrever as Memórias
não agora, fechados os 50, mas desde sempre, de as ir escrevendo
com os dias, para depois as arrebanhar e nos oferecer. Homem organizado.
É
da homenagem a muitos seus contemporâneos que Jorge Silva Melo quer
que as Memórias se façam; e nessa humildade de se encarar
como mero figurante, o rapaz que assiste à vida lá do 2º balcão
(«nunca nos libertamos da adolescência, não é?»),
está uma das lições deste livro a todos os títulos
comovente: a consciência de que há gestos inaugurais que são
absorvidos pela época que os suscitou, e que essa injustiça
do presente nos pode calhar a nós.
Mesmo assim, mesmo sabendo que ninguém conhece aquilo que o futuro
dele irá reter, Jorge Silva Melo entrega este livro, trabalho de
toda uma vida e oportunidade de exposição e auto-valorização,
aos que vieram antes. As memórias dele são essencialmente
as memórias que ele guarda dos outros. E isso, neste país
ingrato, trapaceiro e grandiloquente, é coisa de nos apertar o coração:
«
Não andei, livre, a vagabundear, nem livre divago, nem foi, afinal,
sozinho comigo e as bolhas nos pés que calcorreei Tates e Louvres,
cinematecas e escadas para o galinheiro das óperas. Prolongo, filho
eterno e demorado aluno, genes e lições (…) nada inventei,
tudo me foi em segredo ditado (…) Vil tristeza, esta pobre identidade,
nem o nariz é meu, nem aquilo que vejo fui eu a ver.»
Imprensa
"Eu
paro aqui, o livro continua. Isto não é uma recensão,
para o caso de não terem reparado. Acho que este livro não é recenseável
(a vida também não), mas é muitíssimo
legível.
Por 30 euros, passem o Verão no nosso século XX, visto
de hoje."
Francisco Belard,
Actual de 30 de Junho de 2007
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