Lançado pela Cotovia
e Angelus Novus Século
de Ouro é, simultaneamente, um
volume antológico e ensaístico, da e sobre a poesia portuguesa
do século XX
-- com uma diferença significativa em relação aos modelos de
antologia em vigor: os poemas antologiados foram escolhidos
não pelos organizadores do
volume, mas pelos 73 ensaístas convidados. Trata-se pois, em
rigor, de dois livros num: uma antologia poética - a maior e
mais ambiciosa feita até ao
momento sobre o século XX - e uma colectânea de ensaios, também
ela ambiciosa e, a esta escala, nunca feita.
Um consenso crítico persistente, fabricado por pessoas com a
responsabilidade de Óscar Lopes, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Eugénio de
Andrade ou Joaquim Manuel Magalhães vem caracterizando o século XX como o
Século de Ouro da poesia portuguesa. Tal consenso pede já há algum tempo uma
concretização em livro. Essa a justificação dos organizadores
do volume - Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra -, bem como
das
editoras envolvidas,
para este projecto de grande magnitude.
O volume inclui, no final, vários tipos de índice: índice geral, índice de
poemas, índice de poetas, índice de ensaístas, índice cronológico. Esta
multiplicação permite ao leitor escolher o seu caminho e a sua grelha de
leitura, centrando-se ou na antologia poética ou nos ensaios. Ponto
decisivo, os poemas não se sucedem segundo uma ordem cronológica, mas sim de
acordo com uma disposição aleatória, estabelecida pelos organizadores apenas
no momento da composição final do volume. Ou seja, embora seja possível ler
nele a história da poesia novecentista portuguesa, não é intenção dos
organizadores produzirem um volume de História Literária. Muito
diversamente, o volume deverá ser entendido como um objecto de uso múltiplo
e, por isso, de entrada múltipla. Nesse sentido ainda, o volume inclui no
final um elenco de breves biografias dos poetas antologiados, bem como um
elenco análogo de breves apresentações dos colaboradores.
Para participarem neste projecto, os organizadores seleccionaram
um vasto painel de personalidades, de acordo com os seguintes
critérios: 1) pessoas
com obra feita na crítica literária e, mais especificamente, na crítica da
poesia portuguesa do período em causa; 2) críticos jovens, com obras
emergentes, cujas vozes é curial escutar num momento de transição e, por
isso também, de balanço; 3) críticos portugueses a residir e trabalhar em
Portugal ou no estrangeiro, bem como lusitanistas espalhados pelo mundo; 4)
poetas a quem se propõe que, momentaneamente, «passem para o outro lado»,
praticando, ainda que numa vez sem exemplo, a crítica dos textos
que mais os marcaram.
Eis o elenco completo dos 73 colaboradores do volume, por ordem
alfabética
do nome:
Abel Barros Baptista, Alcir Pécora, Américo António Lindeza Diogo, Ana Luísa
Amaral, Ana Sofia Ganho, António Apolinário Lourenço, António Cândido
Franco, António Feijó, António Ladeira, Antonio Sáez Delgado, Arnaldo
Saraiva, Carlos Mendes de Sousa, Carlos Reis, Carlos Veloso, Clara Rocha,
Eduardo Lourenço, Eduardo Pitta, Ettore Finazzi-Agrò, Eugénio Lisboa, Eunice
Ribeiro, Fátima Freitas Morna, Fernanda Alvito, Fernando Cabral Martins,
Fernando Guerreiro, Fernando J. B. Martinho, Fernando Matos Oliveira,
Fernando Pinto do Amaral, F. J. Vieira Pimentel, Gastão Cruz, Gustavo Rubim,
Helena Buescu, Joana Frias, João Barrento, Jorge Fazenda Lourenço, Jorge
Fernandes da Silveira, José Carlos Seabra Pereira, José Ricardo Nunes,
Kenneth D. Jackson, Luciana Stegagno Picchio, Luís Adriano Carlos, Luís
Mourão, Luís Quintais, Manuel António Pina, M. Corbo Alvarez, Manuel Gusmão,
Marcia Arruda Franco, Margarida Braga Neves, Maria Alzira Seixo, Maria Irene
R. Sousa Santos, Maria Sousa Tavares, Miguel Tamen, Nuno Júdice, Osvaldo
Manuel Silvestre, Patrick Quillier, Paula Morão, Paulo Franchetti, Pedro
Eiras, Pedro Mexia, Pedro Schachtt Pereira, Pedro Serra, Perfecto Cuadrado,
Peter Sanmartinho, Rita Patrício, Robert Bréchon, Roberto Vecchi, Rosa Maria
Goulart, Rosa Maria Martelo, Rui Magalhães, Ruy Duarte de Carvalho, Silvina
Rodrigues Lopes, Vítor Manuel Aguiar e Silva, Victor Mendes e
Yara Frateschi Vieira.
Por seu turno, o conjunto de 47 poetas representados em Século de Ouro,
conjunto que é o resultado da escolha de poemas levada a cabo por cada um
dos ensaístas, inclui:
Adília Lopes, Alberto Pimenta, Alexandre O'Neill, Almada Negreiros, Ana
Luísa Amaral, Ângelo de Lima, António Franco Alexandre, António José Forte,
António M. Pires Cabral, António Maria Lisboa, António Osório, António Ramos
Rosa, Armando Silva Carvalho, Camilo Pessanha, Carlos de Oliveira, Carlos
Queirós, Cristovam Pavia, Daniel Faria, David Mourão-Ferreira, Edmundo de
Bettencourt, Eugénio de Andrade, Fernando Assis Pacheco, Fernando Guerreiro,
Fernando Pessoa, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Herberto Helder,
Irene Lisboa, Jorge de Sena, José Régio, Luís Miguel Nava, Luiza Neto Jorge,
Manuel António Pina, Manuel Gusmão, Mário Cesariny, Mário de Sá-Carneiro,
Mário Saa, Nuno Júdice, Pedro Tamen, Reinaldo Ferreira, Ruy Belo, Ruy
Cinatti, Rui Knopfli, Sophia de M. B. Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vasco
Graça Moura e Vitorino Nemésio.
O processo de gestação do volume passou por diferentes etapas. Num primeiro
momento, os organizadores pediram aos colaboradores contactados que
escolhessem, distinguindo-os por ordem de preferência, três poemas que
considerassem maiores no panorama da poesia portuguesa do século XX. Depois
de cruzadas as escolhas, de modo a evitar repetições, aos diferentes
ensaístas foi atribuído um poema de entre os da sua eleição. Seguidamente,
cada um dos participantes redigiu um comentário, em regime de close reading,
tendo-lhes sido indicada uma extensão máxima aproximada de modo a garantir a
uniformidade formal dos ensaios. Uma vez recebidos todos os comentários
(que, de modo a surgirem enquanto tal, são desprovidos de título),
procedeu-se à edição propriamente dita do volume.
Ponto decisivo, ainda, os poemas não se sucedem segundo uma ordem
cronológica, mas sim de acordo com uma disposição aleatória ou serial. Os
organizadores recorreram a um script de Matlab que produziu várias
sequências aleatórias, de 1 a 73, sendo depois sorteada uma delas ainda por
computador. Fazendo corresponder os números da sequência aos poemas com os
títulos ordenados alfabeticamente, chegou-se à ordem aleatória pela qual
eles estão dispostos no volume. Significa isto que o século - o século XX, o
século de ouro - foi o operador eleito para esta tentativa de reflexão sobre
as formas pelas quais a experiência da simultaneidade do passado, que é a de
todos os leitores, pode ter impacto sobre a nossa ordenação, aleatória,
indeterminada, eternamente in fieri, dos textos que constituem
esse mesmo passado.
Século de Ouro propõe, pois, não uma História da Poesia Portuguesa do Século
XX, mas antes, mais modestamente, mas também mais radicalmente, «73 poemas
portugueses do século XX»: a poesia, primeiro; os textos poéticos, depois; a
crítica, enfim; e a experiência, de novo livre, da leitura de 73 poemas, sem
ordem nem ordenação prévias. Tentou-se, pois, extrair todas as consequências
interpretativas, no sentido mais lato, das palavras de (por exemplo) Theodor
Lessing: «Não há progresso nem regresso. Não há começo nem fim. Não existem
eras, e não existe História». E que figura mais rigorosamente pós-histórica
que a de um Século de Ouro? Todas estas questões são demoradamente abordadas
na Introdução ao volume, da autoria dos organizadores e intitulada
«Desaprender (com) a História».
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