Prémio Luís Miguel Nava 2009
SILÊNCIO
Toda a minha vida
me escutaste em silêncio.
Tinhas à disposição
as vozes enormes
do
vento, das águas,
do trovão, do pintassilgo —
mas nunca dei por que as usasses comigo.
Envelheci enredado
nas teias dessa mudez.
Ganhei
a industriosa astúcia dos velhos
à custa
de perder a candura original,
li com cada vez mais desenganada luz
o
teu silêncio.
Assim, a princípio achava-o cúmplice,
quente
e generoso. Um silêncio
de quem concorda e apoia,
e
não acha necessário proclamá-lo.
Com
a continuação,
começou-me a parecer o teu silêncio
já só condescendência. O silêncio
de
alguém que se dispensa de mostrar
desacordo por simples cortesia.
A.M. Pires Cabral, in As
têmporas da cinza
PROGNÓSTICO
Sou do tempo em que
não se
corrigiam
dentes defeituosos.
Além
disso, perdi praticamente
todos os molares.
Para piorar as coisas,
a TAC acusa um desvio para a esquerda
do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei-de dar,
não haja dúvida.
A.M. Pires Cabral, in As
têmporas da cinza
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