O novo poeta que os
Livros Cotovia acabam de lançar nasceu no Porto, em 1973.
Obstinadamente
invisto contra uma corrente contrária
Que obstinada investe contra mim uma musa
De saliente fala. Libertar-me bem queria mas não sei
Se o medo se a circunstância se a melancolia
Me treme quando só o lance resolvia, me limita
Quando a imensidão pedia, me oxida o aço à porfia.
Tudo à volta me comprime numa mesquinha condição
E O’Neill às vezes não existem teu machado de língua
afiada,
Tuas ensinadas varinas de sinuosas varizes,
Tuas empenadas narinas de empinados narizes,
Às vezes O’Neill é só o vazio e suas raízes.
[A falta saliente, p. 18]
Osvaldo M. Silvestre*(blog: Casmurro; 6 de Junho de 2005), sobre Daniel Jonas:
Será Daniel Jonas a maior revelação
da poesia portuguesa
na década que corre? Por mim, não vejo quem lhe possa retirar por
agora esse título, pois Os fantasmas Inquilinos, acabado de editar na
Cotovia, produz por si só uma poderosa deslocação de coordenadas
na paisagem da poesia novíssima, até aqui dominada pela 3ª geração
de neo-realistas pós-70: riqueza e surpreendente criatividade lexical,
coisa que julgávamos ser já da ordem do pecado; imaginário
de amplo espectro, do biológico infra (o amniótico, o sexual primordial,
o animal, o vegetal, etc.) ao gótico, sem esquecer o mundano por vezes
cruel ou desgostante, por vezes transcendido por uma simbologia «elementar»;
poeta culto, contudo sem exibições à la Sena; poesia por
vezes em estado de teoria sem deixar de o ser (poesia); etc.
Estou
ainda a lê-lo
(a ruminá-lo) com a lentidão exigível, mas, por agora, aqui
fica uma sequência poemática, lamentando não poder transcrever
um dos poemas mais longos, já que uma das coisas que este Jonas traz da
baleia da poesia é a reabilitação convincente da forma extensa.
Não se deixem impressionar por estes poemas longinquamente pessoanos,
pois há coisas bem menos excessivas (e auto-paródicas?) no livro,
que como ocorre nos livros notáveis é uma cornucópia para
vários gostos. Eu, pecador me confesso, gosto muito destes.
Ó noite, vale umbroso, com teu xaile de corvos,
Com tuas mãos, cobre-me!
Vem sobre mim, ó noite mãe, enterra-me!
Sob teus alçapões medonhos de estéreis fundos,
Dá-me à tua negra luz,
Tecedora aracnídea, cigana,
Este homem tuas saias escondam,
Imitações, influências, lençóis sidéreos,
De lacre espesso as lágrimas:
A gruta nupcial!, a gruta nupcial!
Ó transparentes torpedos, ventos
pendulares,
Lúcidos tormentos!
Lâmpadas, sílica, rompantes esgares!
Ó corredores sinuosos de aparições talares,
Fisiologia da estese,
Degelo espúmeo de vítreo gás!
Fantasias, imaginações,
Associações, imprudências, fugaz monólito
De irregressáveis dedos:
A gruta nupcial!, a gruta nupcial!
Ó lua, corno crescente, teu aço
enterra
Neste lombo tenro!
Lúrida basílica, hóstia porosa!
Ó pênsil lua sobre ondas mate e profundas,
Companheira de ascese,
Degelo de sangue, hemoptísica!
Na pelúcia destes nervos, vem,
Fundeia essa âncora nesta romba quilha
De incontáveis tormentos:
A gruta nupcial!, a gruta nupcial!
* ensaísta dos mais reputados, publicou
diversos estudos sobre literatura portuguesa, brasileira e africana dos
séculos XIX e XX. Foi co-director do jornal cultural on line Ciberkiosk
e coordenador da revista de poesia de Portugal e Brasil Inimigo Rumor.
Com Pedro Serra, organizou o volume Século de Ouro. Antologia Crítica
da Poesia Portuguesa do Século XX. É docente da Faculdade
de Letras Universidade de Coimbra.
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