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[Poesia de língua portuguesa]

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Monodrama

 

ISBN: 978-972-795-297-7

Carlito Azevedo

160 pp.

€16,00

   

 


 

 

 

 

 

 

"Abre a porta à nova poesia brasileira de qualidade; denota conhecimento profundo do fazer poético no Brasil.”

Revista "Os Meus Livros"

 

Carlito Azevedo nasceu no Rio de Janeiro (4 de Julho de 1961). O seu primeiro livro de poemas, Collapsus linguae, recebeu o prémio Jabuti. Publicou ainda As banhistas, Sob a noite física (em Portugal: Livros Cotovia, 2001) e a antologia Sublunar, que recebeu o prémio Alphonsus de Guimarães, da Biblioteca Nacional do Brasil. É editor da revista de poesia Inimigo Rumor.

Bernardo Carvalho, na sua coluna no jornal Brasil Econômico:

Que seria de Portugal sem Pessoa e sem Camões? Ou da Rússia sem Tolstói, Dostoiévski e Tchékhov? Ou da Irlanda sem Joyce e Beckett? A literatura melhora os países, mesmo quando é para contar suas derrotas e seus horrores – e sobretudo quando conta suas derrotas e seus horrores. Só por burrice um Estado não defende sua literatura. É uma questão de marketing, para não falar de coisas mais elevadas.

As cidades também só têm a ganhar com a prosa dos seus escritores e a lírica dos seus poetas. Ninguém duvida que Buenos Aires seja melhor com Borges, Dublin seja melhor com Joyce e o Rio com Drummond seja melhor do que sem ele. Se eu dissesse o mesmo de um poeta como o Carlito Azevedo, talvez você torcesse o nariz. Mas seria por simples desconhecimento. O que é natural, já que ele ficou treze anos sem publicar nada. Enfim, o problema pode ser resolvido, porque ele acaba de lançar um livro extraordinário: Monodrama (7Letras). Este pode não ser o espaço ideal para uma resenha. Mas Monodrama tampouco é um livro comum. E não é todo dia que você vai bater os olhos num livro assim.

Num dos poemas, uma amiga diz ao poeta, ao passar por uma moça que se pica junto a uma mureta do Aterro do Flamengo: “Nenhum poema/ é mais difícil/ do que sua época”. Carlito Azevedo nasceu em 1961. É um poeta carioca, com dicção carioca, que passou a vida no Rio, e o simples fato de ele ser um poeta carioca hoje, num tempo tão pouco literário, já enriquece essa cidade que, a despeito de toda beleza, de todo marketing e de toda autosugestão, não é propriamente o lugar mais aprazível do mundo. Mas é melhor com esses poemas do que sem eles. Em tempos difíceis, é um alívio viver no mesmo país e falar a mesma língua de um poeta como esse.

Monodrama não diz horrores do Rio. Ao contrário, celebra a melhor tradição da poesia brasileira feita no Rio de Janeiro, aquela que combina o aparentemente simples com a ironia, sem precisar recorrer ao insólito para se fazer poética e original. É uma poesia ao mesmo tempo discreta e incisiva, cuja precisão do corte é perturbadora, fazendo surgir do banal o mais terrível e o mais belo. Um sentido extraordinário por trás das coisas mais coloquiais, como no fragmento reproduzido na contracapa: “Eu pergunto se/ você quer ir para/ casa “Sim”/ se está pensando/ em grandes espaços vazios/ “Sim” se tudo/ vai passar/ tudo vai/ ficar bem/ “Sim sim”/ se realmente/ se apaixonou/ se pensou em/ morrer “Sim”/ se eles cortaram/ os seus lindos/ cabelos.”. Ou no poema que fala de uma menina com xilofone e flores, escrevendo poemas numa rua de Berkeley, na Califórnia: “(...) não havia mesmo nada ali/ quando ela escrevia os poemas (...) e lá se vão dez/ ou treze anos/ e eu simplesmente nunca/ os/ a/ consegui esquecer”.

Não sei o quanto pode haver de traição em revelar que Monodrama converge para um poema incrível, H., sobre a morte da mãe. É o poema final. A certa altura, o filho se inquieta, ao se dar conta de que não sabe se a mãe teve “uma morte boa ou uma morte má”. Não sei o quanto pode haver de traição em expor aqui a resposta da mãe morta (Hilda, a mulher do H do título) ao filho, mas cito assim mesmo, porque ela revela afinal o poeta que ele é:

“– Comparada com a larga eternidade de nada sentir, nada provar, nada tocar, ver e ouvir que nos espera, a morte no sono, como dizem que coube a Chaplin, vale o que valem as dez costelas partidas, as orelhas arrancadas, os dedos decepados, a laceração horrível entre o pescoço e a nuca, a equimose larga e profunda nos testículos, o fígado lacerado, o coração lacerado, o rosto inchado irreconhecível, os hematomas, última forma física assumida por Pasolini nesse louco planeta que agora, para você, gira também sem mim.”

Se alguém ainda quiser saber para que serve a literatura, a resposta está dada: para que de vez em quando alguém escreva um poema como esse H., do Carlito Azevedo.


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