É tarde que te
canto ou cedo foste
Tão surda quanto eu mudo e não tão mudo
Que tu tão cedo ida e tu tão toste
No teu capricho em mim mudasses tudo?
Mudou-se o amor em nada, nada que era.
Um fogo calcinou a sede, é triste.
Arguir: p’ra quê? Dizer: o quê? se insiste
A dor que nada aclara e tudo erra...
Partiste, ó elo fraco desta algema,
Ou se da vide a imagem mais te adivinha
Nem és abraço ou elo, és gavinha,
Zurrapa que hás-de ser p’ra outro Baco.
Pois parte lá, o verme outro buraco
Na morte apenas vê, nenhum dilema.
DANIEL JONAS, Sonótono
Daniel Jonas nasceu em
Abril de 1973 no Porto, cidade onde reside. Licenciou-se em Línguas
e Literaturas Modernas na Universidade do Porto e obteve o grau de
Mestre em Teoria da Literatura na Universidade de Lisboa com uma dissertação
sobre John Milton, de que resultou a tradução de Paradise
Lost, publicada pela Cotovia em 2006.
Sonótono é o seu quarto livro de poemas, desde que se estreou em
1997 com a recolha para jogos florais O Corpo está com o Rei. Seguiu-se
Moça formosa, Lençóis de veludo (2002) e Os
Fantasmas Inquilinos( Cotovia, 2005). Prepara actualmente uma selecção de poemas de
William Wordsworth.
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