Depois
Disto...Desisto
Tantas coisas que
já li
Outras tantas que vivi
Fazem de mim o que sou
Ai se eu tivesse esquecido
Tudo o que tenho vivido
E o coração decorou
Tudo é questão de memória
É o nosso pensamento
Que a vida nos vai passando
A memória faz história
Do que foi cada momento
Que nós vamos recordando
Isto da alma é segredo
Ninguém sabe desvendar
Os porquês de tudo isto
Sabemos que tarde ou cedo
Iremos a enterrar
E depois disto...desisto
" [...] sei praticamente de cor todos
os versos que a senhora canta [...]. De cor ou de cor negra são
quase sempre as cantigas do seu próprio punho e nelas podemos
de imediato sentir o gosto óbvio pela redondilha tão ao
jeito do fado, mas que ela sabe manejar musicalmente em certas aliterações
e outros jogos verbais, verdadeiros achados poéticos."
Armando Silva Carvalho, Diário de Notícias
" Amália soube, como
ninguém tinha sabido antes dela, trazer a grande literatura ao
fado e, com isso, dar-lhe uma dignidade diferente, com a ajuda insigne
de Luís Vaz de Camões, de Pedro Homem de Mello, de Alexandre
O´Neill, de David Mourão-Ferreira. Se isto já não é pouco,
parece-me, ante a sua poesia, que podemos compreender melhor as motivações
que a levaram a cometer tais desafios, já nos longínquos
anos 60. E o que ela escreveu fala por si, pois captou destramente os
processos da redondilha para neles projectar a sua personalidade e a
sua vida. Amália sabe aliar as tradições que são,
ao mesmo tempo, do fado e da nossa literatura, à espontaneidade
e à frescura de uma escrita despretensiosa mas muitas vezes pungente.
Ou, pondo as coisas de outra maneira: poderia dizer-se que o que nela é tão
musical e poético decorre, em parte, desse longo trato vivido
com o fado na sua expressão popular e com os grandes autores que
ela escolheu para lhes cantar as palavras também em fado; mas
teria sempre de acrescentar-se que decorre igualmente de uma sensibilidade
apuradíssima e de um instinto certeiro. A poesia é sempre «uma
estranha forma de vida»..."
Vasco Graça Moura, Diário de Notícias
“ Fiquei deslumbrado. Aquilo era
a Amália toda inteira, cheia de animação (...),
e coisas tristes, poemas de amor, do mais impetuoso arrebatamento, ou
versos cheios de ternura, a falar dos bichos, das coisas silvestres,
das flores que nascem à toa nos prados e a Amália anda
a correr pelos campos para as levar todas para casa, antes que apareça
um polícia. E já tem aparecido. Tinha de se fazer um livro
com aqueles versos. (...) “ Mas acha que vale a pena?” perguntou-me a
Amália. Se vale a pena? Aquilo é tudo lindo, é tudo
Amália. (...). E agora, aqui está o livro de versos de
Amália, a Amália a quem tanta gente fez versos ”.
Vítor
Pavão dos Santos, in Versos, ”Nota final”
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