Aquilo
que Edgar Jené aqui faz pela primeira vez tomar forma - será que
isso só habita aqui? Não queríamos nós também reconhecer melhor
o pesadelo da velha realidade, não queríamos ouvir o grito do homem,
o nosso próprio grito, mais alto do que antes, mais estridente?
Olhai: este espelho interior obriga tudo a tomar partido. "O
mar de sangue atravessa a terra": ermas e encanecidas
as colinas da vida. O fantasma da guerra percorre os países
de pés descalços. Tem garras como as aves de rapina ou dedos dos pés
como o homem! É multiforme, e o que é agora? Uma tenda de sangue
suspensa no ar. Quando desce, nós moramos entre paredes de sangue
e farrapos de sangue. Onde o sangue boceja podemos continuar a
olhar e a ver outras formas, semelhantes, de vapores de sangue. [...]
Mas
o poema fala! Mantém viva a memória das suas datas! - fala. É
claro que fala sempre e apenas em causa própria, a mais própria
que se possa imaginar.
Mas penso- e esta ideia dificilmente vos poderá surpreender agora
-penso que desde sempre uma das esperanças do poema é precisamente
a de, deste modo, falar também em causa alheia
- não, esta palavra já a não posso usar agora -,
é a de, deste modo,falar em nome de um Outro, quem sabe se em nome
de um radicalmente Outro.[...]
O
poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se
parte integrante dele.
Mas não se encontrará o poema precisamente por isso, e portanto já
neste momento, na situação do encontro - no mistério
do encontro?
O poema quer ir ao encontro de um Outro, precisa desse Outro, de
um interlocutor. Procura-o e oferece-se-lhe.
Cada coisa, cada indivíduo é, para o poema que se dirige para o Outro,
figura desse Outro.
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