LIVROS

[Poesia traduzida]

[VOLTAR]

Arte poética

Celan, Paul

92 pp.

€12,00

tradução de João Barrento e Vanessa Milheiro  
posfácio e notas de João Barrento  

 

Aquilo que Edgar Jené aqui faz pela primeira vez tomar forma - será que isso só habita aqui? Não queríamos nós também reconhecer melhor o pesadelo da velha realidade, não queríamos ouvir o grito do homem, o nosso próprio grito, mais alto do que antes, mais estridente? Olhai: este espelho interior obriga tudo a tomar partido. "O mar de sangue atravessa a terra": ermas e encanecidas as colinas da vida. O fantasma da guerra percorre os países de pés descalços. Tem garras como as aves de rapina ou dedos dos pés como o homem! É multiforme, e o que é agora? Uma tenda de sangue suspensa no ar. Quando desce, nós moramos entre paredes de sangue e farrapos de sangue. Onde o sangue boceja podemos continuar a olhar e a ver outras formas, semelhantes, de vapores de sangue. [...]

Mas o poema fala! Mantém viva a memória das suas datas! - fala. É claro que fala sempre e apenas em causa própria, a mais própria que se possa imaginar.
Mas penso- e esta ideia dificilmente vos poderá surpreender agora -penso que desde sempre uma das esperanças do poema é precisamente a de, deste modo, falar também em causa
alheia - não, esta palavra já a não posso usar agora -, é a de, deste modo,falar em nome de um Outro, quem sabe se em nome de um radicalmente Outro.
[...]

O poema é solitário. É solitário e vai a caminho. Quem o escreve torna-se parte integrante dele.
Mas não se encontrará o poema precisamente por isso, e portanto já neste momento, na situação do encontro - no
mistério do encontro?
O poema quer ir ao encontro de um Outro, precisa desse Outro, de um interlocutor. Procura-o e oferece-se-lhe.
Cada coisa, cada indivíduo é, para o poema que se dirige para o Outro, figura desse Outro.


 

 

.
LIVROS
.


© 2004 Livros Cotovia. Todos os direitos reservados.
Web-design Copis