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na Alemanha em 1975, Mausoléu é constituído por trinta e sete
baladas dedicadas a trinta e sete figuras históricas que, de alguma forma,
contribuíram para o progresso da humanidade. Esta galeria de figuras
retratadas, que vão do século XIV (Giovanni de’ Dondi) ao século XX (Ernesto
Che Guevara), engloba cientistas, revolucionários, engenheiros, inventores,
arquitectos, políticos, filósofos e artistas; os retratos não escondem uma
amargura que, para a maior parte da crítica da altura, surgiu como expressão
do abandono da utopia revolucionária dos anos sessenta e retrocesso
ao desencanto e a alguma melancolia.
Por trás da “objectividade” do poema-retrato narrativo Enzensberger procura
respostas para as suas próprias interrogações sobre a relação entre os
imperativos do progresso e as contradições da natureza humana; ou entre as
exigências da revolução política, científica ou estética e o perigo da queda
na barbárie. “São histórias de sucessos e fracassos, da disparidade e quase
impossibilidade de conciliação entre o génio (...) e as exigências de uma
vida «humana»”, diz o tradutor João Barrento, no Prefácio. “Se o próprio
título – Mausoléu – parece sugerir qualquer coisa como um necrológio dos
mentores do progresso, alimentado por um pessimismo cultural (...), aquilo
que de facto move a escrita destes poemas nunca é o radicalismo que se
rebela contra uma noção construída de progresso (...).”
Sobre a actualidade e pertinência de Mausoléu no ano de 2004, João
Barrento acrescenta:
“(...) Relido hoje, o livro de Hans Magnus Enzensberger permite ver
como o progresso (...) foi cada vez mais naturalmente (...) afectando
vidas,
sociedades, sistemas. De forma positiva, proporcionando-nos aquilo
a que se
convencionou chamar “qualidade de vida” (...), e também negativa, porque
progresso e sistema castrador andam sempre de mãos dadas. E desta relação
emerge um primeiro problema de fundo, e uma contradição não resolvida: aos
grandes sistemas da industrialização, da urbanização e da comunicação
globalizada, na primeira como na terceira ou quarta revoluções tecnológicas,
corresponde uma progressiva (mas será que é progressista?) racionalização e
desmassificação do trabalho… na era social das massas.”
Hans Magnus Enzensberger, nascido em Kaufbeuren, na Baviera, em 1929,
estudou Literatura, Línguas e Filosofia em Erlangen, Hamburgo, Friburgo e
Paris (Sorbonne). Escreve os seus primeiros livros na Noruega e em Itália
(Defesa dos lobos; A língua nacional). Organizador de
influentes antologias e colecções de poesia, será o responsável pela primeira
selecção
representativa da obra de Fernando Pessoa na Alemanha. Em 1965, praticamente
interrompe a sua actividade poética para se dedicar à revista
político-cultural "Kursbuch" (Roteiro), por ele próprio fundada
e que só
abandonará em 1975. Nela aparecem alguns dos seus mais significativos
ensaios de intervenção.
Viajará muito durante os anos sessenta e setenta, pelos Estados Unidos,
México, União Soviética, América do Sul e Central e pela Europa Meridional,
com estadas prolongadas em Cuba (1968-69) e Nova Iorque (1974-75). Em pleno
“Verão quente”, estava Mausoléu pronto para ser publicado, Enzensberger
desloca-se a Portugal, onde dinamiza vários encontros com escritores e
intelectuais portugueses.
Foram-lhe atribuídos numerosos prémios, de entre os quais se destacam o
Prémio Georg Büchner da Academia Alemã de Língua e Poesia, o Prémio
Heinrich-Böll, o Prémio Ernst Robert Curtius de ensaio, o Prémio Príncipe
das Astúrias de Comunicação e Humanidades e a Ordem Pour le Mérite.
Na década de 90 publicou, para além de quatro livros de ensaios, quatro
livros de poesia (Música do Futuro; Quiosque. Novos Poemas; Mais
Leve Que o Ar. Poemas Morais; Vozes Espectrais. Traduções e Imitações) e um romance
(Por Onde Tens Andado, Roberto?).
H. M. Enzensberger vive desde 1980 em Munique.
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