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O Mal é o quarto livro de ficção de Paulo José Miranda. Tendo já, noutras
obras, abordado a vida e a obra de Cesário Verde, João Domingos Bontempo ou
Antero de Quental, Paulo José Miranda debruça-se agora sobre a poesia e a
vida de Camilo Pessanha, tendo para isso obtido, da Fundação Oriente, uma
bolsa de criação literária em Macau (pouco depois da transição).
Um professor de português em Macau prepara uma dissertação sobre Pessanha
encontrando, à medida que o lê, paralelos consigo próprio e com a sua vida
lá. Aos poucos, por meio das palavras do próprio Pessanha, vamos
acompanhando as reflexões e a vivência deste professor, narrador
estrangeirado que vagueia também pela língua portuguesa e pelo seu país como
um emigrante amargurado.
A esquizofrenia começa pela manhã, ao tomarmos café num restaurante
português com empregados filipinos, antes da aula de literatura portuguesa
que costumo dar aos alunos chineses oriundos de Xangai. Por mais que se viva
não nos habituamos a escutar pedidos como one meia torrada and one expresso,
please. Por vezes, one rissol and one expresso with pingo. Lá fora, a
humidade é de 95% e os macaenses movimentam-se devagar, apesar do frio
relativo. As montras dos supermercados estão forradas a vinho português,
conhaque francês e whisky sabe-se lá de onde. Com a chegada do sol tudo fica
pior do que já era. Ao almoço, os restaurantes portugueses ficam repletos de
portugueses que comem uma comida pior do que a dos snacks de Lisboa, com a
desvantagem de terem mais tempo para apreciar o desconforto, que felizmente
já não se sente. Já não se sente o desconforto de se ser português. No
estado actual do meu espírito, tanto se me dá como se me deu, diria
Pessanha...
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