O
texto de “António, um rapaz de Lisboa” foi elaborado num Seminário
de Escrita Teatral organizado pelo Serviço Acarte da Fundação
Calouste Gulbenkian entre 1 de Fevereiro e 14 de Março de
1995.
“Fomos
mais ou menos 20 pessoas a fazê-lo: e durante 24
sessões juntos pensámos, errámos, perdemo-nos,
encontrámos (de vez em quando houve uns “Eureka!” e isso foi
bom) e discutimos e esquecemos e voltámos a pensar.
A pensar?
Sobre como é viver em Lisboa. Um rapaz viver em Lisboa.
Uma rapariga,
outra, uma mulher, outros rapazes.
Quando? Hoje.
Será como a gente escreveu? Se calhar não é. E depois?” .
Jorge
Silva Melo, in “Prefácio de quem vai à guerra”, António,
um rapaz de Lisboa.
A peça
“António, um rapaz de Lisboa” estreou
no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian,
em Setembro de 1995, no âmbito dos Encontros Acarte. Encenada por Jorge
Silva Melo, contou com o desempenho dos actores:
Lia Gama, Manuel Wiborg,
Sylvie Rocha, Isabel Muñoz Cardoso, Paulo Claro, Marco Delgado, Joana
Bárcia, Alfredo Nunes, Isabel Leitão.
Em
2001, Jorge Silva Melo realizou o filme "António um rapaz
de Lisboa", com o referido elenco da peça, e ainda Ivo Canelas, Miguel
Borges, Glicínia
Quartin, António
Simão, Artur Ramos, José Airosa, Luís Esparteiro,
Luís
Gaspar, Madalena Victorino, Nuno Lopes, Ricardo Aibéo, Teresa Roby,
entre outros.
António: ... estão a olhar para mim... para as
minhas costas... o meu rabo... não me posso mexer... não olhem para mim assim...
não...
sabem como é?... ganhar a vida... não olhem para mim, a desenhar há quanto tempo
estou eu aqui, nu em frente a estes gajos que olham para mim, o radiador ao pé
para eu não ter frio, posso mexer de cinco em cinco minutos, agora não posso,
mexi há bocado, não olhem para mim, estão a olhar-me para os braços, aquela gaja
está a desenhar-me o braço direito, as veias saídas hoje estão as veias saídas...
ou é da posição, estão a olhar para mim, a olhar para o meu rabo, não sabem,
estão a desenhar... há quanto tempo estou aqui... modelo nu... há quanto tempo...
ainda não posso mexer, ainda não... o radiador ao pé... ou é da posição... não
costumo ter cãibras... ou é de hoje... não dormi... custa mais do que na semana
passada... não olhem para mim assim, estão a desenhar-me o braço, o braço direito,
na semana passada era outra posição... esta não sei, hoje custa mais, não sabem,
não sabem, não olhem para mim, não olhem para mim assim, já posso
mexer?
Jorge
Silva Melo, António, um rapaz de Lisboa |