LIVROS
[Teatro de autores de língua portuguesa]

[VOLTAR]

Questionar apaixonadamente: o teatro na vida de Luis Miguel Cintra

ISBN:972-795-028-0

Serôdio, Maria Helena

280 pp.

€27,50


 

 

 

É impossível falar do teatro português do século XX sem referir o Teatro da Cornucópia e o seu mais reconhecido rosto: Luis Miguel Cintra – o multifacetado actor, encenador, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, tradutor –cuja obra nos honra também internacionalmente, em grande parte graças aos trabalhos cinematográficos, com destaque para os filmes de Manoel de Oliveira.
Apostada na divulgação do Teatro (português e estrangeiro, novo e clássico), com mais de 100 títulos publicados nessa área em cerca de 15 anos, a Cotovia encomendou a Maria Helena Serôdio (Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, especialista em Estudos de Teatro e Literatura Inglesa, e Directora de Estágios para Jovens Críticos, da associação internacional de Críticos de Teatro) uma análise da obra de Luis Miguel Cintra – que se quis abrangente e rigorosa, mas de leitura cativante para públicos menos especializados.
Findo um ano de trabalho intenso, surge Questionar apaixonadamente: o teatro na vida de Luis Miguel Cintra.


Assuntos abordados:
Iniciação ao Teatro Pelas Razões da Vida;
Teatro da Cornucópia: ‘desmesuradamente fiel’ a um projecto;
Uma poética de cena: o difícil amor pelo público;
Interpelar o tempo, reler a história;
A sequência literária na construção de um repertório (o cómico e a comédia; o trágico; um cânone português);
Uma outra arquitectura do mundo;
A razão interpretativa;
A margem do desejo;
Outras formas de dizer e figurar;
Anexo documental exaustivo.
 

"Estar em Cena É Muito Mais Forte do Que a Vida"

Por Joana Gorjão Henriques (Público)
Domingo, 6 de Janeiro de 2002
Entrevista com Luis Miguel Cintra


A primeira biografia de Luis Miguel Cintra foi editada pela Cotovia. Voz incontornável, encenador de teatro e ópera, actor "fétiche" de cinema de Manoel Oliveira, Cintra diz que representar é estar próximo de uma exaltação erótica.

Aos 52 anos, Luis Miguel Cintra é indiscutivelmente um marco fundamental no teatro português das últimas décadas. Uma vida assim é já objecto de biografias. Foi o que fez Maria Helena Serôdio com "Questionar Apaixonadamente o Teatro na Vida de Luis Miguel Cintra". Para este homem "representar é mais forte do que vida". No jogo entre o parecer e o ser, o palco torna-se o lugar onde tem coragem para ser tudo o que não ousa na vida real. Uma sensação de plenitude insubstituível.
Talvez por isso uma das características que melhor define o estilo de representação dos actores que têm passado pela companhia que fundou em Lisboa e dirige desde 1973, a Cornucópia, seja a recusa do naturalismo. O actor ideal para Luis Miguel Cintra não reproduz a vida fotograficamente: exarcerba-a. "Somos capazes de ser mais violentos, de sermos mais doces, de amarmos mais. Ficamos livres daquilo que nos limita na vida real.
" Mas a vida real também se mistura com o teatro. Cintra sabe que "a história pública é diferente da pessoal" tanto que, ao ler o livro, ficou surpreendido com a "coerência de pensamento e de percurso". Um percurso que se confunde com o da sua companhia, que fundou, em 1973, com Jorge Silva Melo. Hoje, sobre o teatro dos outros, não é muito animador: considera fraco o trabalho teatral sobre os textos em Portugal, diz não sentir ousadia no ambiente à sua volta e como actor tem dificuldade em entregar-se às mãos de um encenador português.


Quando funda e dirige com Jorge Silva Melo o Teatro da Cornucópia assina alguns espectáculos em co-autoria com ele. Era conflituoso partilhar a autoria de uma criação?

LMC: Não, não, não. No princípio da Cornucópia tínhamos decidido alternar as encenações mas depois na prática conversávamos sobre tudo. Já era muito difícil distinguir o que era de um e de outro, porque eu metia a colherada nas coisas dele e ele nas minhas. A partir de certa altura passámos a assinar os dois. Depois, com a própria Cristina Reis, isso também aconteceu.
Não havia muito a ideia de autoria, ninguém estava a optar por fazer uma carreira individual. Era mais difícil em questões que envolviam a direcção da companhia, com a organização, com as coisas que têm a ver com poder.
Houve alturas já mais complicadas. Foi difícil distinguir a vida privada da vida profissional, não havia qualquer espécie de diferença. São coisas difíceis, complexas, que surgem a toda a gente, e que surgiram também nessa altura, problemas de relacionamento de vária ordem.

Diferentes pontos de vista do que deveria ser a companhia?

LMC: Acho que o nosso distanciamento tem mais a ver com questões privadas e pessoais do que com caminhos intelectuais ou opções estéticas. Até porque nunca fui muito forte nas minhas opções estéticas ou pelo menos na sua formulação. Fui sempre muito influenciável. Muito dificilmente, perante uma opção que o Jorge me apresentasse, seria capaz de defender o ponto de vista oposto.
Não dá nada essa ideia de ser muito influenciável, antes pelo contrário.
Sou muitíssimo influenciável. Há coisas que não controlo, coisas pouco racionais. Posso ser levado instintivamente para determinados caminhos. Aí, é difícil alguém contrapor-se. Muito dificilmente abdico dessas vontades, torno-me numa personalidade forte.
Não tenho muitas certezas, duvido constantemente. Por isso achei graça ao título do livro Questionar Apaixonadamente.... Na palavra apaixonadamente existe esse lado de força intuitiva, impulsiva. É muito às três pancadas que vou avançando e é nesse campo das hesitações que facilmente se insere uma influência das outras pessoas. Gosto muito no teatro a gente ter a sensação que nunca nada é definitivo. Provavelmente, é o medo da morte, não querer que nada seja o fim. O cinema para mim é muito mais duro, porque aquele momento de filmar o plano é definitivo.

Quando é que se decidiu definitivamente pelo teatro?

LMC: Foi o prazer de representar. Achei que era uma coisa absolutamente fantástica, insubstituível, extraordinária. Isso ainda é anterior ao Anfitrião na Faculdade de Letras. Foi logo na substituição do Joaquim Manuel Magalhães em Auto dos Físicos, de Gil Vicente, em que fui fazer o Moço, onde o Luis Lima Barreto fazia de clérigo, em 1967.
A sensação de plenitude, de alegria de estar em cena, de jogo, é insubstituível, os actores com certeza reconhecerão isso. É muito mais forte do que a vida. Porque tudo é exacerbado e é, ao mesmo tempo, completamente lúdico: tudo é verdadíssimo e nada é verdade, ao mesmo tempo, é completamente livre. É irresponsável, de certa maneira: quando se representa a gente sabe que no momento seguinte pode sair, deixa de ser verdade. É cobarde, por outro lado, mas é uma sensação fantástica.
Quando estamos a representar, investimos na representação como transformação do próprio. Somos capazes de ser mais violentos, de sermos mais doces, de amarmos mais. Ficamos livres daquilo que nos limita na vida real. Na vida real não temos a possibilidade de inventar uma quantidade de coisas que podíamos ter vivido e é como se estivéssemos a brincar a todas essas coisas.
A própria presença do público, pelo menos no meu caso, não tem a ver com gosto de ser observado, da exposição. O facto de estarem outras pessoas a olhar faz com que seja um momento de verdade, com que tudo se torne mais perigoso, no sentido em que não devia haver batota possível.

A exaltação da representação está próxima do quê, da experiência do amor, da paixão?

LMC: Se levarmos até ao extremo creio que tem muito a ver com erotismo também. Está próximo da exaltação erótica na medida em que envolve corpo, paixão, sentimentos, cabeça, tudo ao mesmo tempo. É uma coisa que tem a ver com sentidos.
Para si o actor tem que ser uma pessoa absolutamente excepcional...
Uma personalidade banal não será capaz de inventar uma coisa excepcional em cena. Não acho interessante um actor reproduzir, como se fosse fotograficamente, os comportamentos que a gente já conhece. O interessante é a transformação, a potencialização da vida. O que gosto mais num actor é a generosidade, a sua capacidade de não ter defesas quando está representar: o que inventa ser maior do que ele próprio. Sinto em relação às pessoas com quem trabalhei uma intimidade entre mim e elas que se gerou através disso: no momento em que estavam a ensaiar, a representar, gerou-se uma exposição de si próprias, uma quebra de todas as defesas. Houve um momento de comunicação que me ficou, com uma carga de afectividade gigantesca.
Por mais inventado que seja o jogo, o processo é verdadeiro. Custa-me muito perceber as pessoas que dizem que estou sempre enfiado a ensaiar e não vivo.

Falou várias vezes da mistura entre o teatro e a sua vida. Nunca se sente como um D. Quixote, a olhar para a vida e a ver teatro, a olhar para as pessoas e a ver personagens?

LMC: Não, isso não. E repugna-me muito a ideia daquelas pessoas que dizem que levam o personagem para a rua, como se o personagem não tivesse nada a ver com elas. Quando olho para uma pessoa não a vejo como uma superfície, a minha tendência é ver ao contrário, é tentar perceber como pensa. E no trabalho de representar e dirigir actores estou sempre à procura do trajecto mental da personagem, peço aos actores que construam as personagens por dentro, mais do que começar por um comportamento físico ou por uma imagem que seja o seu comportamento exterior. Não acredito tanto na ficção de uma peça. Quando faço uma peça não estou tanto a pensar na história que está ser inventada com os seus personagens, estou mais a pensar que estão ali o José Airosa, a Rita Durão, a Rita Loureiro, o Ricardo Aibéo e que são eles que estão mascarados, nunca perco a consciência que são eles que estão ali e não os personagens.

LMC: A encenação é uma outra forma de escrever teatro, "uma tomada de posição moderna, mesmo com textos clássicos", afirmou. Qual é o centro da sua escrita?
Não sei se sou capaz de o dizer. Gosto que as coisas surjam intuitivamente e espontaneamente por contacto com o trabalho. Tenho observado algo muito parecido no Manoel de Oliveira, dá-me a sensação que ele vai descobrindo o que pensa à medida que vai fazendo. As coisas vão-se construindo no contacto com o material.

Já disse que sem si dificilmente a Cornucópia existiria. É o centro da companhia que por sua vez cria, em cada espectáculo, "um universo poético que tende a ser fechado em si próprio". No limite, cria para si?

LMC: Sim. No limite dos limites crio para mim próprio mas tenho é sempre a fé de que o que resulta daí possa ser uma coisa estimulante para outras pessoas, que os outros possam usufruir do enorme prazer que tenho. Há um lado muito egoísta, porque de facto me dá imenso prazer.

Narcisismo?

LMC: Sim, de certa maneira, se levarmos a um extremo de análise, é capaz de ser uma actividade absolutamente narcísica, de se dar prazer a si próprio. Mas também não sei se grande parte das obras de arte não são todas um bocadinho assim. Desse prazer faz parte escolher um grupo, nasce muito do contacto com as outras pessoas, não é um prazer de estar sozinho.

Recorda que o seu pai lhe comprou uns livrinhos sobre santos, gente rara, e que precisou sempre de exemplos, de santos, de vidas políticas, vidas voltadas para os outros e voltadas para Deus. Que exemplos são estes?

LMC: Não quero dizer... Isso são coisas secretas, não quero dizer!

Quem é que considera santo?

LMC: Vai dependendo dos momentos. Por exemplo, quando estava a fazer 'Afabulação' achava que o Pasolini era um santo absoluto. Quando estava a fazer 'Público' achava que era o Lorca.
Mas o meu conceito de santo está muito ligado ao de pecador! Quer dizer, vidas exemplares, extraordinárias no que conseguiram fazer, na ousadia que tiveram, na capacidade de modificar as pessoas à sua volta, na capacidade de resistência ao gosto dominante... Heróis!

Nos 25 anos da Cornucópia disse que não se lembrava dos prémios, mas só das críticas que o fizeram chorar. Porque é que as críticas exercem esse efeito tão violento?

LMC: Chorar porque perceberam absolutamente o que estávamos a fazer ou porque não perceberam de todo. Há um grande acto de generosidade no momento de fazer um espectáculo e uma crítica é uma resposta por escrito a esse acto. Quando a gente se sente traído nesse acto custa muito.

Citando "O Casamento de Fígaro", 1999, no programa, escreve: "Esta é a imagem da vida em que eu me reconheço (...), uma estrada que passei o tempo a juncar de flores mas de que um dia serei forçado a sair". Quando pensa na morte, o que imagina?

LMC: Não imagino sensações nenhumas, penso na morte sempre como um fim, uma privação de estar vivo, como o oposto de uma coisa que prezo muito que é sentir a vida. Apesar de me considerar católico, nunca penso numa vida eterna, numa vida para além da morte. Penso que, depois de morrermos, a Vida com letra grande continua mas que vou estar privado dela, quando acabar acabou. Custa-me envelhecer, custa-me aproximar da morte, mas não sou só eu. Já me assustou mais, mas assusta-me.
Numa fase em que tive a presença da morte com a doença do meu pai e do meu irmão, que levou à morte dos dois, senti um pavor terrível. Tanto que nos espectáculos era frequente aparecer esse tema, a caveira. Depois, comecei a conviver melhor com essa ideia. Tanto que conservei sempre no meu escritório a caveira do Hamlet, peça que nunca fiz. É uma representação da morte, como existia nos quadros barrocos, para lembrar a fugacidade da vida.

E a velhice, para um actor...

LMC: ...é um problema. Tenho agora muito mais consciência disso. O corpo fico muito mais limitado, fica-se cansado, a voz também, a memória fica pior, pensa-se pior. Há papéis que ficam para trás. Como estou numa posição de encenador, convivo bem com isso, as responsabilidades vão mudando. Não me sinto, de maneira nenhuma, limitado na minha vida profissional por causa disso. Sei que se estiver um papel muito cansativo tenho que dormir mais, uma disciplina, mas isso também se aprende e um actor, em princípio, tem a obrigação até profissional de se conhecer a si próprio para lidar consigo mesmo. E creio que soube, em vez de me fechar só nas pessoas da minha idade ou nas pessoas que conhecia, abrir-me a pessoas mais novas e perceber que uma das formas melhores de envelhecer é o contacto com os mais novos. Comecei a perceber, recentemente, que me dá imenso prazer transmitir o saber a pessoas mais novas, não organizado tipo aulas, mas através do trabalho.

Tem medo da solidão?

LMC: Imenso, imenso. E não tenho aquele antídoto contra a solidão que, apesar de tudo, as pessoas com descendentes têm (vivo sozinho, não tenho filhos) e a solidão é mais perigosa nesses casos. Assusta-me a falta de afecto porque preciso muito de afectividade e acho que uma pessoa sozinha pensa pior, faz menos coisas, fica sem graça. Sinto-me desprotegido e sinto falta de estímulo.

Para um jovem actor que entra na Cornucópia, contracenar consigo dever ser assustador. Como é que o encenador Luis Miguel Cintra protege os outros actores do actor Luis Miguel Cintra?

LMC: Não tenho nunca essa consciência, não tenho a mínima ideia, juro que não tenho. Tenho tanto medo de me pôr a contracenar com eles como eles comigo, de certeza absoluta. Mas de vez em quando reparo que da parte deles existe esse problema. Creio que existe muito menos a partir do momento em que nos conhecemos, à segunda ou terceira peça creio que isso já não existe. Aliás, é uma coisa que me dá um enorme prazer, poder estar a contracenar, em pé de igualdade, com pessoas mais novas. Porque são muito menos protegidos na maneira de representar.

Como é que tem gerido as relações com as pessoas que têm passado pela Cornucópia?

LMC: Fico muito ligado a muitos que aqui estiveram. A parte da sedução é muito importante, porque a certa altura já não há maneira de surpreender, não há mais nada para oferecer.Nesse caso, há um processo natural e as pessoas saem ou não as chamo mais.

E nessas relações, o poder incomoda-o?

LMC: Incomoda-me sentir-me na situação de poder. E às vezes incomodam-me aqui na companhia por abdicar dele.
Com certeza que outras pessoas que trabalham aqui dirão que tenho imenso poder. E até é possível reconhecer que preciso disso, que gosto, sem dar por isso. Mas a relação hierárquica é uma coisa que me repugna completamente.
Claro que, como encenador, as pessoas sabem que eu sou o olhar. Isso é um situação de poder e exerço-a muito. Não sou o tipo de encenador que abdica dessa responsabilidade, mas sofro um bocadinho com isso.
As pessoas notam uma grande diferença quando estou no cinema só como actor, sou muito menos tenso e muito mais feliz. E no teatro, quando estou a ser dirigido por outras pessoas, o que não acontece tanto, sinto-me mais livre nesse relacionamento com os outros.

Tem dificuldade em ser dirigido no teatro. E isso acontece porquê, por não reconhecer legitimidade no outro?

LMC: Sim, é muito contraditório. Porque, começo logo a pensar que faria de outra maneira... Talvez seja o hábito de estar nessa posição que me impede de me entregar completamente a outra pessoa. Mas se confio, então é a felicidade... Ainda agora tive essa experiência, fui fazer uns dias de filmagem com o Oliveira, ele está fantástico.
No teatro, já me tem acontecido confiar em alguém para me dirigir. Com a Christine Laurent acontece muitas vezes, confio inteiramente no que ela me está dizer. Com o Jorge confiava inteiramente, por exemplo. Era muito agradável representar com ele a dirigir, apesar de ele dirigir de uma maneira muito diferente.

Não teme que isso cause alguma repetição?

LMC: Temo, temo e tenho consciência que causa. Se pensasse no meu trabalho de actor gostaria de ser dirigido por outras pessoas, precisava disso para me desenvolver mais. Mas devia ser com pessoas em quem confiasse. Não é muito fácil. Adoraria, dos encenadores que admiro imenso, daria tudo para ser dirigido por eles: pelo [Klaus Michael] Grüber, pelo [Patrice] Chéreau, pelo Bergman. E não sou tão modesto que não acredite que não pudesse fazer bom trabalho com eles. Podia fazer coisas surpreendentes que nunca fiz ou que não ouso mostrar.

E em Portugal?

LMC: Do ponto de vista artístico confiaria de facto no Jorge, mas há tanta coisa passada entre nós que seria com certeza uma relação muito difícil de trabalho. Por isso, essa hipótese não se põe. Se pusesse uma hipótese como o Ricardo Pais, há uma diferença de gosto muito grande que me levaria com certeza a não aderir a uma direcção dele... é muito difícil. Mais facilmente seria dirigido por uma pessoa com uma personalidade menos formada e com um estilo menos afirmado, como um jovem encenador. Mas não sei se puxaria por mim, não teria se calhar a mesma função.


Mas como representar a humanidade à nossa maneira? Como representa quem tem opinião mas não tem doutrina? Como representa quem vê mas não quer deixar de também ser visto? Herdámos, passou a fazer parte de nós, uma visão do mundo, temos um ponto de vista donde se vê sempre o mundo dividido em ricos e pobres, donde se vê o homem deformando-se a si próprio, destruindo a sua vida, destruindo a vida dos outros? Como se fala disto sem nos impormos a outras visões, sem tirarmos aos outros o direito a discordar? Como se fala quando o que queremos não é obrigar os outros a ouvir-nos, mas pôr os outros a pensar e a falar também?
 

Luis Miguel Cintra

 

Maria Helena Serôdio é Professora Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, especialista em Estudos de Teatro e Literatura Inglesa, e Directora de Estágios para Jovens Críticos, da associação internacional de Críticos de Teatro.

.
LIVROS
.


© 2004 Livros Cotovia. Todos os direitos reservados.
Web-design Copis