É impossível falar do teatro português do século
XX sem referir o Teatro da Cornucópia e
o seu mais reconhecido rosto: Luis Miguel Cintra – o multifacetado
actor, encenador, dramaturgo, cenógrafo, figurinista, tradutor –cuja obra nos honra também internacionalmente,
em grande parte graças aos trabalhos cinematográficos, com destaque
para os filmes de Manoel de Oliveira.
Apostada na divulgação do Teatro (português e estrangeiro, novo e
clássico),
com mais de 100 títulos publicados nessa área em cerca de 15 anos,
a Cotovia encomendou a Maria Helena Serôdio (Professora Catedrática
da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, especialista em
Estudos de Teatro e Literatura Inglesa, e Directora
de Estágios para Jovens Críticos, da associação internacional de
Críticos de
Teatro) uma análise da obra de Luis Miguel Cintra – que se quis abrangente
e rigorosa, mas de leitura cativante para públicos menos especializados.
Findo um ano de trabalho intenso, surge Questionar apaixonadamente:
o teatro na vida de Luis Miguel Cintra.
Assuntos abordados:
Iniciação ao Teatro Pelas Razões da Vida;
Teatro da Cornucópia: ‘desmesuradamente fiel’ a um projecto;
Uma poética de cena: o difícil amor pelo público;
Interpelar o tempo, reler a história;
A sequência literária na construção de um repertório (o cómico
e a comédia; o trágico; um cânone português);
Uma outra arquitectura do mundo;
A razão interpretativa;
A margem do desejo;
Outras formas de dizer e figurar;
Anexo documental exaustivo.
"Estar em Cena É Muito
Mais Forte do Que a Vida"
Por Joana Gorjão
Henriques (Público)
Domingo, 6 de Janeiro de 2002
Entrevista com Luis Miguel Cintra
A primeira biografia de Luis Miguel Cintra foi editada pela
Cotovia. Voz incontornável, encenador de teatro e ópera, actor "fétiche" de
cinema de Manoel Oliveira, Cintra diz que representar é estar próximo
de uma exaltação erótica.
Aos 52 anos, Luis
Miguel Cintra é indiscutivelmente
um marco fundamental no teatro português das últimas décadas.
Uma vida assim é já objecto de biografias. Foi o que fez
Maria Helena Serôdio com "Questionar Apaixonadamente o Teatro
na Vida de Luis Miguel Cintra". Para este homem "representar é mais
forte do que vida". No jogo entre o parecer e o ser, o palco torna-se
o lugar onde tem coragem para ser tudo o que não ousa na vida
real. Uma sensação de plenitude insubstituível.
Talvez
por isso uma das características
que melhor define o estilo de representação dos actores
que têm passado pela companhia que fundou em Lisboa e dirige desde
1973, a Cornucópia, seja a recusa do naturalismo. O actor ideal
para Luis Miguel Cintra não reproduz a vida fotograficamente:
exarcerba-a. "Somos capazes de ser mais violentos, de sermos mais
doces, de amarmos mais. Ficamos livres daquilo que nos limita na vida
real. " Mas a vida real também se mistura com o teatro. Cintra
sabe que "a história pública é diferente da
pessoal" tanto que, ao ler o livro, ficou surpreendido com a "coerência
de pensamento e de percurso". Um percurso que se confunde com o
da sua companhia, que fundou, em 1973, com Jorge Silva Melo. Hoje, sobre
o teatro dos outros, não é muito animador: considera fraco
o trabalho teatral sobre os textos em Portugal, diz não sentir
ousadia no ambiente à sua volta e como actor tem dificuldade em
entregar-se às mãos de um encenador português.
Quando funda e dirige com Jorge Silva Melo o Teatro da Cornucópia assina
alguns espectáculos em co-autoria com ele. Era conflituoso partilhar a
autoria de uma criação?
LMC: Não, não,
não. No princípio
da Cornucópia tínhamos decidido alternar as encenações
mas depois na prática conversávamos sobre tudo. Já era
muito difícil distinguir o que era de um e de outro, porque eu metia
a colherada nas coisas dele e ele nas minhas. A partir de certa altura
passámos a
assinar os dois. Depois, com a própria Cristina Reis, isso também
aconteceu.
Não havia muito a ideia de autoria, ninguém estava a optar por
fazer uma carreira individual. Era mais difícil em questões que
envolviam a direcção da companhia, com a organização,
com as coisas que têm a ver com poder.
Houve alturas já mais complicadas.
Foi difícil distinguir a vida privada da vida profissional, não
havia qualquer espécie de diferença. São coisas difíceis,
complexas, que surgem a toda a gente, e que surgiram também nessa altura,
problemas de relacionamento de vária ordem.
Diferentes pontos de vista
do que deveria ser a companhia?
LMC: Acho
que o nosso distanciamento tem mais a ver com questões privadas
e pessoais do que com caminhos intelectuais ou opções
estéticas.
Até porque nunca fui muito forte nas minhas opções
estéticas
ou pelo menos na sua formulação. Fui sempre muito influenciável.
Muito dificilmente, perante uma opção que o Jorge me
apresentasse, seria capaz de defender o ponto de vista oposto.
Não dá nada essa
ideia de ser muito influenciável, antes pelo contrário.
Sou muitíssimo influenciável. Há coisas que não controlo,
coisas pouco racionais. Posso ser levado instintivamente para determinados caminhos.
Aí, é difícil alguém contrapor-se. Muito
dificilmente abdico dessas vontades, torno-me numa personalidade forte.
Não tenho muitas
certezas, duvido constantemente. Por isso achei graça ao título
do livro Questionar Apaixonadamente.... Na palavra apaixonadamente
existe esse lado de força intuitiva, impulsiva. É muito às
três pancadas que vou avançando e é nesse campo das hesitações
que facilmente se insere uma influência das outras pessoas. Gosto muito
no teatro a gente ter a sensação que nunca nada é definitivo.
Provavelmente, é o medo da morte, não querer que nada seja o fim.
O cinema para mim é muito mais duro, porque aquele momento de filmar o
plano é definitivo.
Quando é que se decidiu
definitivamente pelo teatro?
LMC: Foi o prazer de representar.
Achei que era uma coisa absolutamente fantástica,
insubstituível, extraordinária. Isso ainda é anterior
ao Anfitrião na
Faculdade de Letras. Foi logo na substituição
do Joaquim Manuel Magalhães em Auto dos Físicos,
de Gil Vicente, em que fui fazer o Moço, onde o Luis
Lima Barreto fazia de clérigo,
em 1967.
A sensação de plenitude, de alegria de estar em cena, de jogo, é insubstituível,
os actores com certeza reconhecerão isso. É muito mais forte do
que a vida. Porque tudo é exacerbado e é, ao mesmo tempo, completamente
lúdico: tudo é verdadíssimo e nada é verdade, ao
mesmo tempo, é completamente livre. É irresponsável, de
certa maneira: quando se representa a gente sabe que no momento seguinte pode
sair, deixa de ser verdade. É cobarde, por outro lado, mas é uma
sensação fantástica.
Quando estamos a representar, investimos
na representação como transformação do próprio.
Somos capazes de ser mais violentos, de sermos mais doces, de amarmos mais. Ficamos
livres daquilo que nos limita na vida real. Na vida real não temos a possibilidade
de inventar uma quantidade de coisas que podíamos ter vivido e é como
se estivéssemos a brincar a todas essas coisas.
A própria presença
do público, pelo menos no meu caso, não tem a ver com gosto de
ser observado, da exposição.
O facto de estarem outras pessoas
a olhar faz com que seja um momento de verdade, com que tudo se torne mais perigoso,
no sentido em que não devia haver batota possível.
A exaltação
da representação está próxima
do quê, da experiência
do amor, da paixão?
LMC: Se
levarmos até ao
extremo creio que tem muito a ver com erotismo também.
Está próximo da exaltação erótica
na medida em que envolve corpo, paixão, sentimentos,
cabeça, tudo ao mesmo
tempo. É uma coisa que tem a ver com sentidos.
Para si o actor tem que
ser uma pessoa absolutamente excepcional...
Uma personalidade banal não
será capaz de inventar uma coisa excepcional em cena. Não acho
interessante um actor reproduzir, como se fosse fotograficamente, os comportamentos
que a gente já conhece. O interessante é a transformação,
a potencialização da vida. O que gosto mais num actor é a
generosidade, a sua capacidade de não ter defesas quando está representar:
o que inventa ser maior do que ele próprio. Sinto em relação às
pessoas com quem trabalhei uma intimidade entre mim e elas que se gerou através
disso: no momento em que estavam a ensaiar, a representar, gerou-se uma exposição
de si próprias, uma quebra de todas as defesas. Houve um momento de comunicação
que me ficou, com uma carga de afectividade gigantesca.
Por mais inventado que seja o jogo, o processo é verdadeiro. Custa-me
muito perceber as pessoas que dizem que estou sempre enfiado a ensaiar e não
vivo.
Falou várias vezes
da mistura entre o teatro e a sua vida. Nunca se sente como um D. Quixote,
a olhar para a vida e a ver
teatro, a
olhar para as pessoas e a ver personagens?
LMC: Não, isso não.
E repugna-me muito a ideia daquelas pessoas que dizem que levam o personagem
para a rua, como se o personagem não tivesse
nada a ver com elas. Quando olho para uma pessoa não
a vejo como uma superfície,
a minha tendência é ver ao contrário, é tentar
perceber como pensa. E no trabalho de representar e
dirigir actores estou sempre à procura
do trajecto mental da personagem, peço aos actores
que construam as personagens por dentro, mais do que
começar por um comportamento físico ou
por uma imagem que seja o seu comportamento exterior.
Não acredito tanto
na ficção de uma peça. Quando
faço uma peça
não estou tanto a pensar na história
que está ser inventada
com os seus personagens, estou mais a pensar que estão
ali o José Airosa,
a Rita Durão, a Rita Loureiro, o Ricardo Aibéo
e que são
eles que estão mascarados, nunca perco a consciência
que são
eles que estão ali e não os personagens.
LMC: A encenação é uma
outra forma de escrever teatro, "uma tomada
de posição moderna,
mesmo com textos clássicos", afirmou.
Qual é o
centro da sua escrita?
Não sei se sou capaz de o dizer. Gosto que as coisas surjam intuitivamente
e espontaneamente por contacto com o trabalho. Tenho observado algo muito parecido
no Manoel de Oliveira, dá-me a sensação que ele vai descobrindo
o que pensa à medida que vai fazendo. As coisas vão-se
construindo no contacto com o material.
Já disse que sem si
dificilmente a Cornucópia existiria. É o
centro da companhia que por sua vez cria, em cada
espectáculo, "um
universo poético que tende a ser fechado
em si próprio".
No limite, cria para si?
LMC: Sim. No limite dos
limites crio para mim próprio mas tenho é sempre
a fé de que o que resulta daí possa
ser uma coisa estimulante para outras pessoas,
que os outros possam usufruir do enorme prazer
que tenho. Há um
lado muito egoísta, porque de facto me
dá imenso
prazer.
Narcisismo?
LMC: Sim, de certa maneira,
se levarmos a um extremo de análise, é capaz
de ser uma actividade absolutamente narcísica,
de se dar prazer a si próprio.
Mas também não sei se grande
parte das obras de arte não
são todas um bocadinho assim.
Desse prazer faz parte escolher um grupo,
nasce muito do contacto com as outras
pessoas, não é um
prazer de estar sozinho.
Recorda que o seu pai lhe
comprou uns livrinhos sobre santos, gente rara,
e que precisou
sempre de exemplos,
de santos,
de vidas políticas, vidas voltadas
para os outros e voltadas para Deus.
Que exemplos são
estes?
LMC: Não quero dizer...
Isso são coisas secretas,
não
quero dizer! Quem é que
considera santo?
LMC: Vai
dependendo dos momentos. Por exemplo, quando estava a fazer 'Afabulação'
achava que o Pasolini era um santo absoluto. Quando estava a fazer 'Público'
achava que era o Lorca.
Mas o meu conceito de santo está muito ligado ao de pecador! Quer dizer,
vidas exemplares, extraordinárias no que conseguiram fazer, na ousadia
que tiveram, na capacidade de modificar as pessoas à sua volta, na capacidade
de resistência ao gosto dominante... Heróis!
Nos 25 anos da Cornucópia disse que não se lembrava dos prémios,
mas só das críticas que o fizeram chorar. Porque é que as
críticas exercem esse efeito tão
violento?
LMC: Chorar
porque perceberam absolutamente o que estávamos a fazer ou porque
não perceberam de
todo. Há um grande
acto de generosidade no momento
de fazer um espectáculo
e uma crítica é uma
resposta por escrito a esse
acto. Quando a gente se sente
traído
nesse acto custa muito.
Citando "O Casamento de Fígaro", 1999, no programa, escreve: "Esta é a
imagem da vida em que eu me reconheço (...), uma estrada que passei o
tempo a juncar de flores mas de que um dia serei forçado a sair".
Quando pensa na morte,
o que imagina?
LMC: Não
imagino sensações
nenhumas, penso na morte sempre como um fim, uma privação
de estar vivo, como o oposto de uma coisa que prezo muito que é sentir
a vida. Apesar de me considerar católico,
nunca penso numa vida
eterna, numa vida para além da morte. Penso que,
depois de morrermos,
a Vida com letra grande continua mas que vou estar privado dela, quando
acabar acabou. Custa-me envelhecer, custa-me aproximar da morte,
mas não sou
só eu. Já me
assustou mais, mas
assusta-me.
Numa
fase em que tive a
presença da
morte com a doença
do meu pai e do meu
irmão, que levou à morte
dos dois, senti um
pavor terrível.
Tanto que nos espectáculos
era frequente aparecer
esse tema, a caveira.
Depois, comecei a conviver
melhor com essa ideia.
Tanto que conservei
sempre no meu escritório
a caveira do Hamlet,
peça que nunca
fiz. É uma
representação
da morte, como existia
nos quadros
barrocos, para
lembrar
a fugacidade da vida.
E a velhice, para um
actor...
LMC: ...é um problema.
Tenho agora muito mais consciência disso. O corpo
fico muito mais
limitado, fica-se cansado, a voz também, a memória
fica pior, pensa-se
pior. Há papéis que ficam para trás.
Como estou numa
posição de encenador, convivo bem com isso, as
responsabilidades
vão mudando. Não me sinto, de maneira nenhuma,
limitado na minha
vida profissional por causa disso. Sei que se estiver um papel muito
cansativo tenho que dormir mais, uma disciplina, mas isso também
se aprende e
um actor, em princípio, tem a obrigação até profissional
de se conhecer
a si próprio para lidar consigo mesmo. E creio que soube,
em vez de me
fechar só nas pessoas da minha idade ou nas pessoas que conhecia,
abrir-me a pessoas
mais novas e perceber que uma das formas melhores de envelhecer é o
contacto com
os mais novos. Comecei a perceber, recentemente, que me dá imenso
prazer transmitir
o saber a pessoas mais novas, não organizado tipo aulas,
mas através
do trabalho.
Tem medo da solidão?
LMC: Imenso,
imenso. E não
tenho aquele
antídoto
contra
a solidão
que, apesar
de tudo,
as pessoas
com descendentes
têm
(vivo sozinho,
não
tenho filhos)
e a solidão é mais
perigosa
nesses
casos.
Assusta-me
a falta
de afecto
porque
preciso
muito de
afectividade
e acho
que uma
pessoa
sozinha
pensa pior,
faz menos
coisas,
fica sem
graça.
Sinto-me
desprotegido
e sinto
falta de
estímulo.
Para um
jovem
actor que
entra
na Cornucópia, contracenar consigo dever
ser assustador. Como é que o encenador Luis Miguel Cintra protege
os outros actores do actor Luis
Miguel
Cintra?
LMC: Não tenho nunca
essa consciência, não tenho a mínima
ideia,
juro que não tenho. Tenho tanto medo de me pôr a contracenar
com
eles como eles comigo, de certeza absoluta. Mas de vez em quando reparo
que da parte deles existe esse problema. Creio que existe muito menos
a partir do
momento
em que nos conhecemos, à segunda ou terceira peça creio
que
isso já não existe. Aliás, é uma coisa que
me dá um enorme prazer, poder estar a contracenar, em pé de
igualdade, com pessoas mais novas. Porque são
muito
menos
protegidos
na
maneira de representar.
Como é que
tem gerido as relações com as pessoas que têm
passado pela Cornucópia?
LMC: Fico
muito ligado
a muitos
que aqui
estiveram. A
parte da
sedução é muito
importante, porque a certa altura já não há maneira
de surpreender, não há mais nada para oferecer.Nesse
caso, há um processo
natural e as pessoas saem ou não
as chamo mais.
E
nessas relações,
o poder incomoda-o?
LMC: Incomoda-me
sentir-me na
situação de poder. E às
vezes incomodam-me
aqui na companhia
por abdicar dele.
Com
certeza que
outras pessoas
que trabalham
aqui dirão que tenho imenso
poder. E até é possível reconhecer que preciso disso, que
gosto, sem dar por isso. Mas a relação hierárquica é uma
coisa que me
repugna completamente.
Claro
que, como
encenador, as
pessoas sabem
que eu
sou o
olhar. Isso é um
situação de poder e exerço-a muito. Não
sou o tipo
de encenador que
abdica dessa
responsabilidade,
mas
sofro
um bocadinho
com isso.
As
pessoas notam
uma grande
diferença quando estou no cinema só como
actor, sou muito menos tenso e muito mais feliz. E no teatro, quando estou a
ser dirigido por outras pessoas, o que não
acontece tanto,
sinto-me mais
livre nesse
relacionamento com
os
outros.
Tem
dificuldade em
ser dirigido
no teatro.
E isso
acontece porquê, por
não
reconhecer legitimidade
no outro?
LMC: Sim, é muito
contraditório.
Porque, começo logo a pensar
que faria de outra maneira... Talvez seja o hábito de estar nessa
posição
que me impede de me entregar completamente a outra pessoa. Mas se confio,
então é a
felicidade... Ainda agora tive essa experiência, fui fazer uns
dias de filmagem com o Oliveira, ele está fantástico.
No
teatro, já me tem acontecido confiar em alguém para me dirigir.
Com a Christine Laurent acontece muitas vezes, confio inteiramente no que ela
me está dizer. Com o Jorge confiava inteiramente, por exemplo. Era muito
agradável
representar com
ele
a dirigir, apesar
de ele dirigir
de uma maneira
muito diferente.
Não teme que isso
cause alguma repetição?
LMC: Temo,
temo e
tenho consciência que causa. Se pensasse no meu trabalho
de actor gostaria de ser dirigido por outras pessoas, precisava
disso para me desenvolver
mais. Mas devia ser com pessoas em quem confiasse. Não é muito
fácil. Adoraria, dos encenadores que admiro imenso, daria
tudo para ser dirigido por eles: pelo [Klaus Michael] Grüber,
pelo [Patrice] Chéreau,
pelo Bergman. E não sou tão modesto que não
acredite que não pudesse fazer bom trabalho com eles.
Podia fazer coisas surpreendentes que nunca fiz ou que não
ouso mostrar.
E
em Portugal?
LMC: Do
ponto
de
vista
artístico confiaria de facto no Jorge, mas há tanta
coisa passada entre nós que seria com certeza uma relação
muito difícil de trabalho. Por isso, essa hipótese
não se
põe. Se pusesse uma hipótese como o Ricardo Pais,
há uma
diferença de gosto muito grande que me levaria com
certeza a não
aderir a uma direcção dele... é muito
difícil. Mais
facilmente seria dirigido por uma pessoa com uma personalidade
menos formada e com um estilo menos afirmado, como um jovem
encenador. Mas não sei se
puxaria por mim, não teria se calhar a mesma
função.
Mas como representar a humanidade à nossa maneira? Como representa quem
tem opinião mas não tem doutrina? Como representa quem vê mas não quer
deixar de também ser visto? Herdámos, passou a fazer parte de nós, uma visão
do mundo, temos um ponto de vista donde se vê sempre o mundo dividido em
ricos e pobres, donde se vê o homem deformando-se a si próprio, destruindo a
sua vida, destruindo a vida dos outros? Como se fala disto sem nos impormos
a outras visões, sem tirarmos aos outros o direito a discordar? Como se fala
quando o que queremos não é obrigar os outros a ouvir-nos, mas pôr os outros
a pensar e a falar também?
Luis Miguel Cintra
Maria Helena Serôdio é Professora
Catedrática da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa,
especialista em Estudos de Teatro e Literatura Inglesa, e Directora
de Estágios para Jovens Críticos, da associação
internacional de Críticos de Teatro.
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