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Este volume das peças de Bertolt Brecht, o segundo da
série de oito que os Livros Cotovia estão a publicar, abarca
o período que vai de meados dos anos 20 até ao começo
dos anos 30 e inclui, curiosamente, a peça de teatro mais representada
do revolucionário dramaturgo alemão («A ópera
dos três vinténs»), a menos representada («A vida
de Eduardo II de Inglaterra» —que é também a estreia
de Brecht como encenador), e as primeiras incursões no teatro musical
e na ópera, que inauguram a notável, mas breve, colaboração
com Kurt Weil. Organizado cronologicamente, como sucede com todos os volumes
desta série, Teatro 2 publica traduções novas a par
de traduções já existentes, todas elas sob a orientação
de Vera San Payo de Lemos, que assina também a introdução
do volume.
Nessa sua primeira encenação, em 1924, Bertolt Brecht
ensaia a prática e a teoria do teatro épico, isto é,
a construção de efeitos de estranhamento que fomentem uma atitude
crítica e interveniente por parte do espectador. Interrompendo o fluir
da acção e, assim, a concentração do espectador
no desfecho, recorda-se-lhe que a arte não é a vida e sublinha-se
a teatralidade e o artifício da representação. Notável,
indiscutivelmente, é continuarmos hoje a considerar modernos, quando
não arrojados, certos efeitos a que Brecht já então
recorria: projectores à vista nas varas, falas ao público acompanhadas
de mudança de luz, actores presentes em cena a aguardar o momento
de desempenhar o seu papel, cenário e adereços reduzidos a
elementos significativos e funcionais, figurinos depurados identificadores
de grupos, estatutos e papéis sociais, mudanças de cena feitas à vista
do público, etc.
Se as duas primeiras peças deste volume são
influenciadas pelo ambiente da crise pós-Primeira Guerra Mundial,
as restantes trazem a marca da situação económica, social
e política da Alemanha no final da década de 20: o clima de
efervescência e consumismo proporcionado pela estabilidade da República
de Weimar após a crise do pós-guerra termina no Outono de 1928,
quando o colapso da Bolsa nos EUA faz disparar a crise económica,
aumentando o desemprego e conduzindo a greves sucessivas. Em 1929 começam
as perseguições aos judeus e aos comunistas; a fanatização
das massas, desejosas de ordem e segurança, leva ao crescimento do
movimento nazi junto da população. A encenação
radical que Brecht faz da peça «Um homem é um homem» (obrigando
os actores a deslocarem-se sobre andas, a esconderem a expressão sob
meias-máscaras, a usarem grandes luvas, transformados numa espécie
de títeres) suscita, naturalmente, grande escândalo logo na
noite de estreia, tal como já sucedera com «Ascensão
e queda da cidade de Mahagonny», a peça que inaugura a poderosa
colaboração com o músico Kurt Weil.
Ainda que muita da notoriedade pública da obra de Brecht se deva à sua
vertente musical, o trabalho com Weil foi sempre pontuado por discussões
acesas e durará apenas cerca de 4 anos. Demarcando-se do wagneriano
conceito de ‘obra de arte total’(em que os elementos do espectáculo
existem em função uns dos outros e o próprio espectador
participa desse processo encantatório de fusão), Brecht aplica
o método do teatro épico à ópera, o que resulta
na ‘separação radical dos elementos’, que consiste
no tratamento da música, da palavra, da representação
e da imagem como elementos independentes.
Mas
foi realmente singular o resultado da colaboração Brecht / Weil: o êxito
da produção
de 1932 de «Ascensão e queda da cidade de Mahagonny» é surpreendente
para uma ópera contemporânea (cerca de cinquenta récitas),
ao qual não será alheia a hábil estratégia
promocional que põe à venda, no teatro, discos com
versões instrumentais
das canções -- discos estes que serão retirados
de circulação
em 1933, depois da subida de Hitler ao poder, e exibidos nas exposições
de ‘Arte Degenerada’e de ‘Música Degenerada’(1937
e 1938) como exemplos ‘repugnantes’da ‘tendência
judaico-anarquista’apostada em destruir a arte sublime da época.
Maior êxito artístico e comercial obterá «A ópera
de três vinténs», essa espécie de ícone
da Berlim dos anos 20, que não é apenas a mais representada
de todas as peças de Brecht: é, também, uma
das peças
de teatro mais representadas em todo o mundo.
É ainda em meados da
década de 20 que Brecht começa a dedicar-se ao estudo do marxismo,
sistema determinante no seu trabalho de aí em diante, em particular
no começo dos anos 30, com as chamadas peças didácticas
(que constituem o volume 3 desta série que os Livros Cotovia estão
a publicar).
A crescente influência dos nazis revela-se na forma como intervêm
na vida pública e investem contra a liberdade de expressão cívica
e artística. Um mês depois da ascensão de Hitler ao poder,
em Janeiro de 1933, Brecht abandona a Alemanha para um exílio que durará quinze
anos. Regressará em 1948 a uma Alemanha destruída, ocupada e dividida,
e fixará residência em Berlim Leste, onde fundará o teatro
Berliner Ensemble, pretendendo colaborar no projecto de construção
de uma sociedade socialista na República Democrática Alemã.
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