“Se não mentir a si próprio, descobrirá que é uma pessoa com limites e deixará
de querer ir a todas, como fazem os fóbicos. Também não será dono da verdade
nem tão importante como são os paranóicos. Não será o mais perfeito, o que
fica para os obsessivos, nem tão brilhante ou poderoso como os histriónicos
e psicopatas. Não será uma pessoa muito especial, como os esquizofrénicos,
nem um génio, como os maníaco-depressivos. Será apenas uma pessoa comum
que aceita os desafios e os paradoxos da vida, faz o possível para, em cada
momento, dar o que pode e actuar em conjunto com os outros. No entanto,
tem de assumir a responsabilidade completa pelas suas acções. Afinal, todos
fomos expulsos do Paraíso e condenados à solidariedade. Fizemos das fraquezas forças e, uns com os outros construímos coisas admiráveis.
Convenhamos entretanto que tudo isto é muito complicado, pouco gratificante
e difícil de fazer. Fácil, fácil, é mesmo tornar-se doente mental.”
J.L.Pio de Abreu, Como tornar-se doente mental; Quarteto, Coimbra, 2001.